sábado, 15 de outubro de 2011

A convivência.

Durante uma era glacial, muito remota, quando
parte do globo terrestre esteve coberto por densas
camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao
frio intenso e morreram indefesos, por não se
adaptarem às condições do clima hostil. Foi então
que uma grande manada de porcos-espinhos, numa
tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se
unir, a juntar-se mais e mais. Assim, cada uma
podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos,
agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo
aquele inverno tenebroso. A vida ingrata, os espinhos de cada um, porém,
começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que
lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E
afastaram-se feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se, por não suportarem
mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito...
Mas essa não foi a melhor solução. Afastados, separados, logo
começaram a morrer congelados. Os que não morreram voltaram a se
aproximar pouco a pouco, com jeito, com precaução, de tal forma que, unidos,
cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente
para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos
recíprocos. Assim, suportaram-se, resistindo à longa era glacial.
Sobreviveram.
Alexandre Rangel
(As mais belas parábolas de todos os tempos, ed. Leitura

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